A ANGÚSTIA DAS CONSEQUÊNCIAS

O vento gélido soprava com uma bruta intensidade e cortava sua face como faca afiada. Fechou o surrado casaco até o pescoço, como se assim aliviasse o frio que machucava seus ossos.

Sabia que não tinha muito tempo mais de vida, suas pernas mal conseguiam ficar em pé, não tinha forças nem para ir até a esquina comprar um café, cada desconhecido que ali passava e jogava uma moedinha no papelão em que estava acomodado era como um soco no estômago que levava.

– “Não estava pedindo esmolas”, pensou enigmaticamente. “Será que seu semblante estava tão decadente assim?” Suspirou ainda mais desconsolado.

Se fosse voltar ao passado, saberia que toda a situação que estava no momento era a consequência das escolhas que fizera, fora tão desleal com sua família que agora estava ali, abandonado, doente e miserável.

– “Ah! Se pudesse retornar ao passado!” Meditou nos seus mais profundos pensamentos. Transformaria seus atos inconsequentes em atos consequentemente pensados.

Embora sua consciência entendia a impossibilidade da volta, seu coração ansiava pela presença de suas filhas e de seu primeiro amor.

Com a respiração entrecortada, fechou os olhos para tentar aliviar as dores que sentia.  E doces lembranças invadiram sua mente, duas meninas gêmeas vinham correndo em sua direção com os braços abertos, gritando:

– Papai! Papai! Vamos até o lago ver os filhotinhos de pato que nasceram?

Ao se lembrar desse dia seus lábios sorriram como se fosse um leve e suave carinho, suas filhinhas de cinco anos adoravam esperá-lo chegar do trabalho para irem até o lago dar alimentos aos patos que ali ficavam.

As lembranças vinham em formas de flash, não conseguia organizá-las em sua mente, só lembrava que havia tido uma família linda, uma esposa, duas filhas. E as abandonara por causa da cobiça, do poder e de outra mulher.

Era um homem que casara cedo, com uma esposa leal e batalhadora, construíram juntos um império, entretanto no decorrer de sua ascensão, a soberba, o orgulho, e a ganância foram invadindo sua alma, e diante disso a família se desfez. Abandonara o meu melhor, em troca de falsos “amigos” e falsos “amores” que sugaram sua alma, seu dinheiro, e sua saúde.

Mofino pensar, que tudo que passara foi por causa da sua estrondosa estupidez, sabia que agora o que lhe restava era morrer não na paz como gostaria, porque queria o perdão das pessoas que mais magoou.

A dor da alma doía muito mais que a dor que sentia ao respirar. Sentia cada vez mais seu corpo se desfalecer e as lembranças sumiam como se fossem um desenho que se apagava aos poucos.

Sabia que precisava deixar a matéria, sua consciência ainda estava nela, todavia alguma coisa o prendia ainda. Seria uma voz?

– Papai! Papai estamos aqui ao seu lado. Fica tranquilo. Te amamos.

Sem acreditar, tentou abrir os olhos, mas o que conseguia enxergar na sua morbidez eram suas filhas lindas e serenas ao teu lado, dizendo que o amava.

– “Seria um milagre?” Navegou ainda mais fundo no seu subconsciente.

De repente uma voz surgiu no seu ouvido, nunca esqueceria essa voz, pois foi a voz do seu primeiro e único amor.

– Pedro, estou aqui do seu lado. Queremos ver você bem e feliz, fique na paz, meu querido! Assim que melhorar estaremos te esperando.

Uma lágrima desceu dos seus olhos fechados, aliviado por poder, enfim, partir. Na anelação de querer tanto o perdão de sua família seu espírito despediu-se da matéria indo ao encontro de uma morte sem fim.

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