O PASSADO REMOTO

Diante do espelho envelhecido pelo tempo, Raquel observava sua imagem refletida. Aquele vidro mágico realçava suas profundas rugas marcadas pelo decorrer dos anos que outrora passara. Enquanto pegava a escova com as mãos trêmulas, lembrava do tempo que ali se sentava para pentear seus longos cabelos ruivos invejado pelas mulheres e admirados pelos homens.

Era filha única do farmacêutico Antônio Ferreira, dono da única farmácia da cidadezinha de Pitinga no norte de Minas Gerais.  A minúscula cidade era comandada por fazendeiros, políticos e coronéis. O machismo imperava e junto com ele uma discrepância de desigualdade social. Os ricos e poderosos mandavam na cidade não existia um grau de cultura, existia um terrível autoritarismo onde o poder era disputado pelos abastados.  O ensino básico era lecionado em um grande casarão que só os filhos dos mais abonados frequentavam. Os rapazes depois de certa idade saiam para a capital para cursar algum curso superior e as mulheres frequentavam o ensino até aprenderem a ler e a assinarem o nome.

Seu pai não era fazendeiro, nem político e muito menos rico. Porém, devido ao seu alto nível cultural era respeitado tanto pelos poderosos, quanto pelos menos afortunados. Viviam tranquilamente financeiramente, pois como farmacêutico competente que era, sempre o convocavam para qualquer emergência. Não havia médico naquele fim de mundo, ele era considerado quase como um Deus na cidade.

Suspirou de saudades de ter o pai por perto, na sua viagem mental só havia o passado remoto, ele era o seu presente. Por isso, não compreendia porque ele não estava por ali agora. E quando vinha a lucidez lembrava que ele já partira há mais de vinte anos.  As lembranças vinham como flash em sua mente, e sem conseguir distinguir o passado do presente, a mistura a envolvia em momentos inebriantes de um saudosismo cruel, por lembranças maravilhosas.

Enquanto penteava os ralos cabelos brancos, que outrora eram fartos e ruivos, sua mente voltava no passado e com um sorriso de poucos dentes, lembrava do pai contando do amor que sentiu pela sua mãe assim que a viu. Ele era da capital, ela do interior, ambos se encontraram em uma festa de amigos em comum em Belo Horizonte. Antônio acabara de se formar como farmacêutico e Olívia era filha de um fazendeiro falido da pequena Pitinga.

Seu avô Carlos José era homem modesto sem qualquer maldade, perdera boa parte de sua fazenda por confiar na honestidade dos compadres que se diziam amigos. O velho morreu de desgosto, deixando dívidas e um pedaço de terra para a única filha. Pois a esposa fugira com um caixeiro viajante.

Completamente apaixonados, Antônio decidiu mudar-se para Pitinga e ali abriu-se a primeira farmácia da cidade. Naquele quase sertão ele construiu seu alicerce familiar, sua casa, seu trabalho. Olívia era a companheira perfeita, além de prendada e zelosa com a casa, ajudava-o com a farmácia, quando ele precisava se ausentar ou manipular algum medicamento.

Crescera em um ambiente amoroso e acima de tudo íntegro, onde o respeito ao próximo e as diferenças era o que mais predominava, e tendo em vista a convivência com amigas criadas completamente diferente dela, se sentia um peixe fora d água naquela pacata cidade.

Quando chegou aos dezoito anos pediu ao pai para estudar medicina na capital, já que sua tia estava morando por lá.  A influência da profissão do pai criou uma garota com sonhos, por cansar de ver crianças morrendo com doenças que poderiam ser controladas, decidiu dedicar sua vida a melhoria dessa causa.

Antônio Ferreira apoiou a filha, mesmo em uma época que a mulher poderia ser no máximo professora, outra profissão seria um escândalo, principalmente em Pitinga.

E o tempo foi passando, Raquel formou-se, especializando em pediatria, pois as crianças alegrava a sua alma, retornou a sua antiga cidade, para cumprir a realização do seu sonho.

Seu pai um pouco mais velho, cuidava principalmente da população carente, talvez por isso nunca enriqueceu, não era essa a sua vontade nem prioridade, e sim tentar amenizar o sofrimento das dores causadas por alguma doença, ou até mesmo por algum abandono.

Aos vinte e cinco anos formada e apta para a trabalhar começou a unir forças, e com garra conseguiu verbas para a construção do primeiro hospital na cidade. Durante o tempo que levantava as paredes do hospital, Raquel e seu pai conseguiram educar a população carente a prevenir algumas doenças como a diarreia que matava drasticamente crianças menores de dois anos.

Casou-se com o filho de um fazendeiro amigo de seu pai, achara que nunca se casaria, mas o romance surgiu quando Paulo começou a se interessar em ajudá-la a buscar patrocínio para a construção do hospital, juntos trabalharam pela mesma causa e a mortandade de crianças diminuiu consideravelmente, empregos foram gerados, pessoas foram treinadas para ensinar sobre prevenção de doenças.

Com o hospital em pleno funcionamento, foi surgindo outras demandas e assim a cidade que antes era um sertão abandonado pela desumanidade de poderosos e do governo, foi crescendo exigindo melhores condições de uma vida mais digna. O trabalho foi intenso, desgastante, muitas vezes dava vontade de desistir, todavia o rosto daquelas crianças subnutridas a atormentava dia e noite e um sopro de euforia e persistência voltava a lhe atacar fazendo a continuar com mais força de onde havia parado.

Quem foi que disse que mulher casada não poderia trabalhar? Em 1958 no interior do norte de Minas?

Tudo bem que para a época uma mulher que até trinta anos não se casar era considerada uma solteirona, de repente surge o amor de sua vida. E com ele vieram cinco filhos biológicos e dois adotivos, aos quarenta anos de idade era diretora de um hospital, mãe de sete filhos, esposa de um companheiro maravilhoso e filha de um homem exemplar.

Agora na sua rara lucidez em que seus quase 90 anos refletia no espelho, o passado se fora e o presente estava ali nas rugas da sua face. Sentia-se feliz por ter cumprido com sua missão numa época tão complexa onde os direitos das mulheres estavam caminhando a passos lentos. Seus pensamentos foram interrompidos e a lucidez deu lugar a um vazio, uma senhora simpática de uns cinquenta anos a interrompeu:

– Mamãe, Vamos! Está na hora de tomar seu remédio e deitar-se. Amanhã será um grande dia, o prefeito lhe honrará como a mulher mais importante da nossa região, a maior praça da cidade terá seu nome. Sinto um enorme orgulho de você, mamãe. E beijando-a na testa, puxou a coberta para cobri-la melhor.

Raquel deitou-se e fechou os olhos, e nem nos seus mais intrínsecos sonhos poderia imaginar que o seu maior império conquistado foi sua família.

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